terça-feira, 31 de julho de 2007

Dos Anjos Chorões.


Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

(Mário Quintana - Canção da Garoa)

sábado, 28 de julho de 2007

Das contradições.

A gente vive num mundo que diz que a vida é agora, muito provavelmente porque temos plena noção de que no futuro a vida vai deixar de ser.
A gente vive numa sociedade que está envelhecendo, mas que faz apologia à juventude e à beleza.
A gente está engordando cada vez mais, mas o modelo das roupas é cada vez menor, a ponto de um dia chegarmos a conclusão de que roupa é coisa para poucos. (E andaremos pelados e cheios de celulite?)
A gente fundou o nosso conceito de sucesso em competir, vencer e subjugar o seu semelhante, e ainda temos a cara de pau de dizer que as pessoas deveriam se unir e ter mais atenção umas às outras.
A gente quer que ouçam o que temos a dizer, mas não queremos ouvir o outro.
A gente está aos poucos se enterrando no lixo de nossos desperdícios e luxos, mas fazemos apologia à atualização constante e eterna.
A gente vive em uma realidade repleta de pessoas com destinos miseráveis e infelizes, e ainda agimos como se as causas a serem defendidas se acabaram ao final da ditadura militar.
A gente acha que as pessoas estão perdendo a humanidade e a paciência, mas não temos nem paciência para esperar uma velha senhora, moradora de rua, escolher o que ela vai conseguir levar da estante com seu parco dinheiro em um supermercado, nem humanidade para oferecer ajuda, ou a vida.
A gente sabia o que era ser feliz, e ter uma vida que valeu a pena ser vivida, agora a gente precisa que um especialista qualquer que nem nos conhece o diga para nós.
A gente tinha rituais, fé, crenças. Agora quem dita os nossos rituais são as empresas.
A gente tem toda a informação que se poder conseguir, mas não conseguimos lançar juízo crítico sobre elas.
A gente tinha folklore (conhecimento do povo), agora ele foi transformado em crendice e superstição.
A gente tinha dias e noites, épocas, estações do ano, períodos menstruais, maternidades e celebrávamos isso tudo. Tinhamos dias de descanso e momentos em que nos permitíamos não trabalhar. Agora tudo isso se reduz a um linear "aberto 24 horas por dia, sete dias por semana".
A gente vive para tomar do outro, e não entendemos por que as coisas parecem não ir para frente.
A gente vive como se não tivesse nada de errado, mas o fato é que tem.
A gente até sabe o que tem que fazer, mas o fato é que a gente não faz.

Não dá pra assimilar o sofrimento de um mundo inteiro de uma vez, mas o fato é que estamos sofrendo, e nossas mãos estão sujas.
E não podemos lavá-las.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Da Hierarquia.

Everybody helps me make my own mistakes
If I'm left alone
I'd make them anyway

Great events, but can't predict
What's happening in present tense
No reference in code to me

(Mansun - Anti Midas)

Em que buraco eu fui me meter... Acabaram ex officio com a minha coerência interna. Justo aquilo que eu achava que me tornava um médico melhorzinho, capaz de lidar com as situações sem me sair ferido. A idéia do acordo entre pessoas, do respeito... tudo acabado. E eu deixei.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Da realidade.

É engraçado como temos certeza acerca do que as coisas são de fato. Principalmente entre as pessoas da Era da Informação onde para tudo existe uma informação dominante, de forma que para tudo existe um protocolo, de forma que para tudo que existe fora do protocolo, existe uma tendência a reprovar e punir. Se alguma coisa dá errado, mas você seguiu o protocolo, a culpa é da coisa. Se alguma coisa dá errado e você não seguiu, bem... a culpa é sua mesmo. Em todos os níveis pensáveis.

Mas nossas certezas são frágeis, porque para apreender o mundo, nós só temos os nossos sentidos, e os nossos símbolos, e o nosso raciocínio, não muito mais do que isso. Dói dizer, mas eles são limitados. E o preço que a gente paga para ter a ilusão de que há segurança dentro do protocolo, de que todos os tomates serão vermelinhos e terão o mesmo tamanho, de que com certeza absoluta chegaremos em casa sãos e salvos porque todas as possibilidades de algo dar terrivelmente errado estão contempladas, é que a gente coloca à margem a fração da realidade que diz que as coisas estão longe de serem bonitinhas e lineares como as pintamos. É uma fatia ENORME da realidade que a gente discarta para fazermos funcionar a nossa forma de realidade.

Esse jogo também atinge a medicina. Pacientes são ignorados na parte da realidade que não cabe na forma. O que cabe em um protocolo, pelo protocolo é tratado. O que não cabe não existe (ou precisa não existir para que possamos dar credibilidade ao protocolo, afinal de contas já imaginou falar pro estatístico que cada um dos 31% de casos que evoluiu de forma favorável com a medicação o fez de forma absolutamente única?). Esse é o mundo onde a falha está em fugir do protocolo (esquecendo que cada falha se dá de forma absolutamente única pelos motivos já citados).

O fato é que eu vivo em um lugar onde as coisas fogem do protocolo. Um lugar onde o conhecimento estéril e altamente reprodutível e linear se mostra muito difícil de satisfazer. Um lugar onde a quantidade de variáveis que devem ser descartadas em nome do protocolo é, ao meu ver, proibitivo. Essa coisa chamada psiquiatria, em que sabemos razoavelmente bem a quem servir, mas não fazemos a menor idéia de como servir.

As pessoas do meu tempo se pautam pelos protocolos, que por sua vez se pautam por um monte de evidências e outras coisas, que por sua vez se pautam no quão perto de uma certa forma de existir conseguimos colocar o paciente. Esta certa forma inclui se manter calmo, competitivo, produtivo, pró-ativo, independente, etc. Esta por sua vez, se pauta em uma outra forma de existir, que todos deveriam ter, mas ninguém de fato tem. É a forma de existir das pessoas musculosas, saradas, lindas, que acordam com um hálito maravilhoso, maquiadas, com cabelos arrumados, fazem Yoga e vivem, em suma, em estado permanente de graça. Infelizmente, essa forma dura o intervalo comercial.

E eis o material de trabalho do psiquiatra: Um indivíduo que tem por objetivo estar produtivo e sob controle, mas que acha que deveria estar feliz e viver num caminho de flores de comercial de desinfetante, uma visão na qual a pessoa começa num protocolo e subitamente some em um vazio inexplicável e um conjunto de terapias claramente enviesado para a ilusão de que se sabe tudo sobre os indivíduos que eventualmente padecem de alguma doença mental.

Me pergunto se é válido lutar pelo reconhecimento dessa realidade que foge à ilusão de controle, que geralmente se mostra perigosa e imprevisível de se lidar. A experiência mostra que os que se dispõem a lidar com ela saem dela mais fortalecidos da experiência, pois colocam à sua frente uma realidade mais honesta. Me pergunto se é uma causa a se defender, porque as pessoas do meu tempo não se mostram dispostas a sofrer. Tenho medo de me tornar um moralista como meus colegas, pregando o rigoroso oposto exatamente da mesma forma.

Por enquanto, entendamos as regras para podermos quebrá-las de forma responsável em algum momento.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Da publicidade.

Sabe, eu sempre pensei muito que, ao invés de médico, pudesse me tornar um publicitário. Publicitários cuidam de passar idéias para as pessoas, e eventualmente idéias que despertam o que há de melhor nelas. E então eu me lembrei que ser publicitário implica em ter que vender coisas.

E então eu paro diante da televisão na hora do comercial e vejo o que estão fazendo com as pessoas do meu tempo. É um massacre: Aproveite a vida, eles dizem, porque ela é agora, intensamente, mas com moderação, seja radical, mas sem correr riscos, ganhe energia para o seu dia a dia e relaxe, seja bonita do jeito que você é e compre agora o produto que vai te deixar igualzinha uma modelo.

Você não fica confuso vendo propaganda? Eu fico...

Não, consumir não vai te fazer feliz, consumir não vai te tornar mais amável, consumir não vai te dar a mulher dos sonhos (apesar de haver uma mulher nos sonhos em cada comercial), consumir não vai te tornar outra pessoa. Não, não vai acontecer. Não por isso.
As pessoas vendem produtos, eles são bons ou ruins, você pode querê-los ou não, e não há nada de errado nisso, mas não passam de produtos.

As pessoas do meu tempo vieram ao mundo para tomar algo de mim e de você. Legal se elas um dia se contentarem em simplesmente dar o seu melhor para o mundo. O dia que isso acontecer, a publicidade vai se libertar do seu compromisso com o consumo e virar uma forma de arte. Uma bela forma de arte vai ser, diga-se de passagem.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Do erro.

"Errar é humano" (Dito popular)

Um dia, dizem que o mundo já foi composto basicamente de caos. E do caos as coisas foram mudando até dar no mundo que a gente conhece. E graças a que? Ao erro. Sim, ao erro, pois se a primeira forma de vida fosse desprovida de erro, suas replicações seriam perfeitas, e ela não conseguiria produzir nada além de cópias suas, colocando em toda a teoria da evolução das espécies de Darwin (e o próprio Darwin, enquanto criatura) um ponto final.

A penicilina foi descoberta por um erro. O mecanismo que explica a ação dos antidepressivos também foi por um erro. E o Viagra? Erro. Benjamin Franklin, quando perguntado da invenção da lâmpada e de seus fracassos anteriores, disse que ele havia inventado não só uma forma de fazer a lâmpada, mas umas mil formas de não fazer uma.

E mesmo sendo o erro auma coisa assim tão importante, o que as pessoas do meu tempo fazem? Tornam o erro uma condição imperdoável. Todos querem resultado. Todos estão pagando. E vêm com dados estatísticos e estudos duplo cego randomizados dizendo que sabem o que é certo, e baseado em evidências. Evidências que servem aos resultados, e só Deus sabe a mais o que.
Qualquer coisa diferente é erro. E erros não serão tolerados. Nem o livre pensar, nem os pontos de vista discordantes, nem as pessoas diferentes.

Essas são as pessoas do meu tempo. Elas não erram, elas não perdem, elas seguem o protocolo.
E elas vão dar um ponto final a mim, a você, a teoria da evolução das espécies de Darwin, à memória do Darwin e ao resto todo.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Resultado.

Resultar, v tr. ind. e intr. Ser a consequência lógica, a conclusão, nascer, provir, tornar-se, redundar, dar em resultado, orignar-se, pred. tornar-se em resultado, vir a ser (Do lat. resultare)

"Resultado é um punhado de variáveis que você observa, em detrimento de uma infinidade de variáveis que você ignora".